quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Desafio aceite


Desafio aceite!
O desafio a favor da luta contra o cancro. Aderi, até porque tenho uma doença oncológica.
Mas a principal luta contra o cancro é evitá-lo ou apanhá-lo ainda numa fase inicial.
Como já referi noutra publicação, sou uma desleixada quanto à minha saúde.
Já abençoei os malditos (benditos) "indicadores" que por um lado nos condiciona e faz-nos perder tempo a olhar para o computador e fazer cliques atrás de cliques mas por outro é ao cumprirmos esses mesmos indicadores que prevenimos, rastreamos e tratamos as doenças.
E assim aconteceu comigo: fui em Abril à consulta para cumprir indicadores e após os exames detectou-se a doença, o malzinho, o cancro para além de outras mazelitas próprias de quem vai pr'à idade!
Sei que os ditos indicadores irão infernizar quem é médico(a) ou enfermeiro(a) e que gosta do contacto com o doente, de o escutar, de o aconselhar. Acreditem que na minha consulta falamos de tudo: do que o levou lá, da sua vida profissional, familiar, de futebois, das noticias, do presente, do passado e do futuro incerto. Quando se trata de mulheres aí a conversa vai parar quase sempre ao marido. Muitas vezes elas vão à consulta para se queixarem por eles.
Voltando à doença, ao malzinho, ao cancro___ passados mais de 3 meses da cirurgia, os 30 dias de tratamento de radioterapia onde no meio de sofrimento consegui momentos de alegria, consegui ultrapassar estas fases. Outras virão pois a vigilância é mais apertada durante 5 anos.
Mas depois de entrar nesta minha guerra ou luta abençoarei sempre os ditos "indicadores" mesmo pensando que são em demasia.
Aqui deixo, com nostalgia, uma recordação das minhas idas ao "solário": o vestiário onde pendurava a camisola exterior, o saco com a garrafa de água e o frasco de creme para aplicar na pele logo a seguir ao tratamento. Também temos que prevenir os efeitos secundários dos tratamentos.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Regresso ______


De volta a casa.
Digo casa e não lar.
Nos momentos em que a minha filha está cá de férias volta a ser o meu lar mas não o mesmo LAR!
Ainda estou de férias mas esta semana que passei em Cascais com a minha filha e minha família deu para retemperar.
Soube a pouco confesso. Gosto de estar com quem me faz sorrir e até dar gargalhadas. Não tarda ficarei novamente só na minha casa.
Os meus sobrinhos-netos estão lindos. As crianças (mesmo as traquinas) têm o dom de me alegrar o espirito. Basta a sua presença.
Por isso muitas mães de utentes meus e minhas, actualmente jovens adultos(as), ficam admiradas das recordações que tenho dos seus filhos quando eram bebés e crianças.
Como não podia deixar de ser as férias também já não são o que eram. Falta-me o meu filho.
Eu sabia quando ele subia estes degraus. O andar dele era inconfundível. E se lhe cheirava a comida ou sobremesa subia-os num ápice.
E mesmo estando em silêncio na sua sala de trabalho enchia o nosso LAR com a sua presença.
Hoje voltei para minha casa. As férias vão continuar por mais uns dias.
A minha vida mudou, mas continuo a fazer pela VIDA. Um dia chegarei ao cimo da sua escada.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Em que estás a pensar?



Em que estás a pensar? Pergunta habitual do facebook.
Estou a pensar numa mulher que morreu devido ao cancro do útero. Chama-se Margarida. É conhecida por muitos devido ao seu marido e às causas a que se dedicou. Tem a minha idade.
Estou a pensar na, também conhecida, Sofia que tem o cancro da mama. Já acabou os tratamentos. Uma batalha vencida. Mas ainda não acabou a guerra.
Estou a pensar em todos os que têm uma doença oncológica.
Ter uma doença oncológica não significa uma sentença de morte. Nascemos com a sentença de morte, não sabemos nem quando e nem como.
Mas apesar de já ter feito radioterapia, terei que fazer "quimioterapia" oral (Tamoxifeno e Anastrozol) mais a vigilância apertada, não vá alguma "celulazinha malandra" ter-se escapado para outras paragens do meu corpo, durante 5 anos. Depois desses 5 anos passados poderei (poderemos) dizer com mais convicção que a doença, o cancro, o malzinho foi banido. Pelo menos este. Porque terei (teremos) sempre uma probabilidade de arranjar outro tipo de cancro, doença, malzinho. (vade retro!)
E porque foi notificado um aumento da incidência de cancro do endométrio (útero) e de sarcoma uterino (tumor mesodérmico misto maligno, na maioria das vezes), em associação com o tratamento com Tamoxifeno. nada como retirar o dito útero e por acréscimo os ovários, que só aqui estão a ocupar espaço, pois a sua funcionalidade foi-se com a menopausa. É o que vou fazer mais lá à frente.
Mas os meus dias são vividos um de cada vez, sem a pressão que muitos sentem de um futuro incerto.
Prevenção será sempre o ideal para qualquer doença. Depois segue-se a detecção precoce/rastreio com os exames periódicos.
Por isso a importância do Médico de Família, quem nos pode orientar antes que a doença, o cancro, o malzinho tome a dianteira.
E havendo suspeita seguir para consulta de especialidade e passar por tudo que muitos já passamos.
A minha mãe teve o cancro da mama aos 62 anos (já lá vão 26 anos). Foi operada, fez radioterapia e venceu o cancro. Não venceu a morte, porque essa ninguém vence! Mas viveu quase 86 anos. Cheios de história, de alegrias, de força e garra, muitas voltas retorcidas da vida e de muito sofrimento. Sofrimento com a morte prematura da minha irmã mais velha (como sinto o seu sofrimento) e do seu neto e meu filho até ao dia que partiu para junto deles.
Ninguém vence a morte mas pode vencer a VIDA vivendo-a com o coração aberto porque há sempre alguém que necessita da nossa ajuda.
Mais que existir é fundamental VIVER!

Liberdade _____



"Que nada nos limite. Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância."
Simone de Beauvoir

Luso (agora Luena) e Luanda onde vivi, Malange, Cela, Nova Lisboa (agora Huambo), Lobito e Benguela, Novo Redondo ___ Angola de norte a sul e de este a oeste. Neste grande país aprendi a não deixar nada limitar-me. A terra ensina____ ou a ligação que temos com a terra, com as pessoas e com a natureza. Uma ligação que nem todos poderão sentir pois estarão entretidos com as coisas materiais e fúteis da vida.
Essa ligação com a terra angolana é especial. Já disse que Angola é a minha mãe terra.
Na minha infância e juventude a liberdade foi crescendo em mim. Começou a mais importante: liberdade de pensamento. Li muito, absorvi opiniões, vivências e sem me sujeitar a nenhuma a minha substância formou-se.
Nunca convivi bem com o que se diz "socialmente correcto" porque me limitava, tentava oprimir o meu pensamento e consequentemente definir-me como a maioria!
A minha mãe (minha querida mãe ♥) bem tentou moldar-me ao status de ser menina, rapariga. Não o conseguiu.
A liberdade de ser eu, pessoa,a Kinina, que vim ao mundo, não para "ver andar os outros", mas para viver com rebeldia e com liberdade.
E foi na terra mãe Angola que sorvi a minha substância!
Hoje aqui estou eu, a Kinina, rebelde e irreverente.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

5 de Agosto - Último tratamento



Hoje foi o meu último tratamento de Radioterapia.
O tempo passou rapidamente apesar da "canseira" de ir para Braga todos os dias e após o trabalho.
Fui acompanhada da minha filha e da Goreti.
Como iria ter consulta tive de sair de Vizela após um rápido jantar pois fiz o fecho da USF.
Levei Bolinhol e um ramo de flores. O Bolinhol para adoçar a boca dos pacientes, das funcionárias e técnicos e as flores campestres para que a sua beleza encha a alma atormentada dos que ali vão pensando num futuro incerto.
Foi uma alegria para quem lá estava.
Como o serviço estava calmo e a consulta um pouco atrasada entrei logo para os vestiários do "solário". Enquanto lá estive pude ouvir os técnicos a abrir uma das caixas com o Bolinhol e pouco depois a gabá-lo:
- Que maravilha. É mesmo bom!
Despedi-me dos técnicos com um abraço.
À saída quando me cruzava com os outros pacientes fui despedindo com beijos para as "meninas" e "abraço" para os meninos. Desejamos as melhoras e um até já ___ quem sabe um dia fora do Hospital.  
Fui entretanto à consulta. Segundo o meu colega está tudo bem e fez a carta de alta para entregar na Consulta de Oncologia do Hospital de Guimarães.
Referiu-se ao Bolinhol dizendo que era muito bom.
Sorri e agradeci o profissionalismo e simpatia de todos sem excepção.
Já na 1ª sala de espera fui buscar o cartão, despedi-me da Cátia, a Secretária Clinica que estava de serviço, com um abraço apertadinho.
Ela agradeceu e dissemos ao mesmo tempo: Vou ter saudades suas!
Do Bolinhol já só restavam 3 pequenas fatias.
30 dias cheios de momentos e pessoas que nunca esquecerei.
Estou mais rica e cresci como pessoa!
Ficam as imagens aqui e na minha memória.
Abençoada sou por ter ultrapassado esta etapa.
Obrigada à Goreti (minha irmã de coração), à minha Amiga Maria Ivone que me acompanharam aos tratamentos. Ao meu irmão e minha cunhada Ana Salta a preocupação com o decorrer dos tratamentos através de telefonemas diários. À minha familia, aos meus amigos e utentes pela sua solidariedade.
Amanhã é outro dia. Darei outro passo!

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

4 de Agosto


Mais um ___ menos um!
Dias após dia estou a chegar ao fim.
Hoje fui à hora habitual. Na 1ª sala estavam várias pessoas entre pacientes e acompanhantes.
Antes de iniciar os tratamentos, dado que nunca tinha estado em nenhum serviço de Radioterapia, fazia outra ideia do ambiente que se vivia nas salas de espera.
A 1ª sala de espera é acolhedora, tem o balcão ao fundo sempre com flores, as pinturas na parede, tem as cadeiras dispostas de várias formas, a televisão funciona e o som está no volume ideal. Tem máquina de água e café. As pessoas na sua maioria estão com uma postura de combate à doença, ao cancro, ao malzinho.
Na 2ª sala de espera, igualmente acolhedora, eramos 5 pessoas: 2 mulheres e 3 homens, todos conhecidos do "solário". Na televisão decorria o jogo Portugal-Argentina no Brasil. Os homens estavam muito interassados no jogo e nós mulheres começamos a conversa.
- Amanhã é o meu último tratamento - disse eu
- Eu só acabo daqui a 10 dias - disse a senhora que tem 36 anos
- Vai ser um instante. Vou ter saudades vossas e dos momentos que aqui passei.
Ela sorriu e disse:
- Aqui fazemos amizades especiais.
- É verdade - respondi
- O que me está a custar é como fica a pele depois do tratamento - disse ela
- Traga o creme e aplique logo após o "solário" (ela riu-se do "solário") no vestiário. Vai ver que a sua pele vai ficar muito melhor. Mas também a minha pele não é como a sua. A sua ainda é novinha e a minha já está calejada da idade.- respondi
Até os homens se riram desta minha tirada.
E chegou a hora de entrar para levar os penúltimos raios daquele abençoado aparelho.
À saída despedimos-nos com o "até amanhã", "as melhoras" e com um sorriso de orelha a orelha.
Passei pela sala onde ficam os doentes que vão de maca e não resisti a tirar esta fotografia da pintura da parede. Transmitiu-me paz e tranquilidade!
Já só falta 1 tratamento.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

3 de Agosto






Já só faltam 2 tratamentos!
Hoje fui mais cedo pois, logo à noite, tenho a reunião do Rotary Club de Vizela.
Fui acompanhada pela Maria Ivone Pinto Guimaraes.
Na 1ª sala de espera estavam 3 pessoas familiares dos pacientes.
Entreguei o cartão e a Secretária Clinica, na sua imensa simpatia, disse: chegou em boa hora! Vai já entrar pois assim adiantamos os tratamentos. E lá fui para a 2ª sala de espera.
Estava lá um senhor, com cerca de 75 anos, que já conheço de outras vezes que pedi troca para esta hora.
Ele reconheceu-me e disse: Muito boa tarde! Tenho pensado em si quando para aqui venho. Até comentei com a minha mulher que a senhora nem parece estar doente. Sempre com boa disposição.
- E não estou doente! Sinto-me bem, não me dói nada, como bem, durmo bem, trabalho e tenho força para aguentar com as radiações do aparelho que está lá dentro - respondi sorrindo.
E continuei: tive uma doença, já fui operada e agora é tratar de a curar.
- Visto assim tem razão em andar bem disposta. Então também não estou doente pois sinto-me bem. De ora em diante vou dizer aos meus amigos que não estou doente, vou dizer que estou a tratar uma doença. - disse ele e sorriu.
Fui logo chamada para o solário. Estes últmos 5 tratamentos são mais rápidos mas mais intensos! Abençoado creme (Ureadin RX/RD) que aplico logo a seguir, pois apesar de estar moreninha a pele está intacta.
De volta para Vizela não podia faltar o lanchinho no Teatro dos Sonhos (o bem bom está a acabar 😉): Sumo natural de maçã bem geladinho e bolo de chocolate e bolacha oreo (deliciosooooo).
Lá disse: vou ter saudades das pessoas e dos momentos que convivi com elas no Hospital de Braga e também destes deliciosos bocadinhos aqui onde a paz se alia ao prazer de um doce.
Mais um ____ menos um!


2 de Agosto


Mais um ____ menos um!
Hoje fui à hora habitual, ou seja, no meu horário.
Fui com a minha filha e com a Goreti.
No largo corredor que nos leva ao serviço de Radioterapia estavam 3 peças em exposição. Amálgamas de ferro mas com significado___ basta interpretar o que vemos.
Existem muitas situações na nossa vida que, não sabendo interpretá-las, pensamos que não fazem sentido, são amálgamas de emoções, dor, pânico.
Estas esculturas servem para reflexão. Na escultura do Homem está escrito o seguinte:

O Homem

Ao acaso venera o ego e a inocência
leve é a brisa do passo que pisa
Que Tamanho PREVALECE?
Que Outros Nos Poderão ESMAGAR?

ÍRIS

Tudo tem um propósito, uma razão. Muitos, cegos pelo seu ego, não conseguem ver para além da sua vidinha mecanizada, certinha, rotineira.
E se algo de mau ou menos bom lhes acontece, são vítimas do destino ou de Deus que os abandonou. E na sua vitimização não conseguem tirar partido de ensinamentos nesses momentos criando uma amálgama de sentimentos como o desespero, raiva, impaciência e impotência. Na sua falta de lucidez não vêm a "luz" que nos guia nesses maus momentos.
Hoje na 2ª sala de espera, estavamos 3 mulheres. A conversa girou à volta de filhos e netos.
A preocupação das mães é constante mesmo que os filhos sejam adultos.
- O meu filho tem 28 anos e para mim é sempre um menino.- disse  uma delas
Todas concordamos! Os nossos filhos serão sempre os nossos meninos e meninas.
- Tenho uma neta! Vive com a mãe em França. Já não a vejo há mais de 6 meses. A mãe separou-se do meu filho e só agora é que a menina vem a Portugal para nos ver. O tribunal assim o decretou. Pela vontade da mãe a minha neta nunca estaria connosco. - disse ela num misto de alegria e mágoa!
- Não compreendo como os pais (pai ou mãe) conseguem colocar os seus interesses ou melindres à frente do que realmente é importante para a criança. Em muitos casos as crianças servem de arma de arremesso entre um casal desavindo. - respondi
Todas concordaram!
Fomos chamadas para o "solário" fui com a mensagem da escultura no corredor no meu pensamento.
Já só faltam 3 tratamentos!

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

1 de Agosto


Já só faltam 4 tratamentos!
Hoje voltei a ser requisitada para ir mais cedo. A Secretária Clinica telefonou-me pedindo para o fazer. E eu acedi de imediato. Mais tarde fiquei a saber que, infelizmente, não foi porque o número de pacientes diminui mas sim porque houve um atraso em 2 ambulâncias de transporte de doentes. Jantamos rapidamente e lá fomos para Braga (eu e a minha filha Sano Ogawa)
Cheguei e vi que a Secretária Clinica ficou feliz pela minha presença pois na 1ª sala de espera só estavam 2 pessoas e eram acompanhantes. Entrei logo para a 2ª sala de espera. Lá estava uma senhora com cerca de 50 anos, de cabelinho curto a renovar. Já tinha feito quimioterapia. A camisola ditou o local da doença, do cancro, do malzinho.
A conversa iniciou e lá contou que quando notou um "caroço" não ligou muito. Não tinha tempo para ir ao médico.
- Um dia, devido a uma dor forte nas costas, fui ao Médico de Familia. Aproveitei e falei no caroço. Ele viu e "berrou" comigo por não o ter consultado mais cedo. Pediu logo os exames. - disse ela com as lágrimas nos olhos
- Não chore, encare e reaja. Isso vai passar. Daqui a 5 anos ainda nos encontraremos e vamos-nos lembrar disto. - disse eu
- Não é pela doença que choro. Quando o meu marido soube que ia tirar o "peito" ele deixou-me. Disse que não tinha vagar para tratar de uma mulher que já não lhe serviria. - respondeu
- Mais uma razão para não chorar. Marido assim não serve é para si. Pense que um dia poderia ser a senhora a tratá-lo, o que ele não está a fazer por si e sem ele o merecer.
Ela olhou para mim, ficou pensativa e disse:
- Tem razão no que diz. É duro ouvir o que ouvi da boca dele mas vou pensar em mim. Tenho 3 filhos e 2 netas. É por eles que vou fazer ver ao meu marido que sou uma mulher com força.
- Assim está melhor. Sorria que tudo isto vai passar. Tal como as estações do ano a vida renova-se! - respondi
Fomos chamadas para o solário e ela sorriu e agradeceu Eu respondi com outro sorriso.
Nada pior que a dor da alma!

No chão uma lágrima caiu
Foi dor, foi ferida na alma.
Foi o coração que se partiu.

Minorar essa dor é uma constante na Medicina Geral e Familiar. Não tratamos só a dor física.
Tal como nesta foto em que a água apazigua a sede das folhas, o Médico de Familia tem de apaziguar o "coração" dos seus utentes.
Mais um ____ menos um!

domingo, 31 de julho de 2016

Amanhã, peço o novo dia que virá!

"Amanhã, vou acender uma vela na Muxima
Amanhã, levo para os meus santos flores de acácias
Amanhã, peço para toda gente que me estima
Amanhã, peço para o novo dia que virá (amanhã)"

https://youtu.be/S8JdYfaUBZo

Posso afirmar que não sinto saudades de Luanda___ quando digo "saudades aiuê" era dos tempos em que lá vivi. De Luanda o sentimento é outro____ é de filha para mãe. Sou filha de Angola, não há volta a dar. E sinto falta desta mãe, a mãe natureza! Não somos só um corpo quando nascemos. Nós somos a terra. Nasci em Lisboa mas fui criada por Angola fazendo parte de tudo o que a envolvia: a natureza, o ar, o mar, a terra vermelha, as lendas e contos, o som dos batuques, as chuvadas tempestuosas (como gostava delas), a liberdade, o sol, o cheiro a terra molhada, o singelo. Sou, simplemente, a Kinina.
Por isso não sinto saudades de Angola. Sinto falta da Terra Mãe que me vai chamando___ chamando____chamando!
Amanhã, peço para o novo dia que virá!

sexta-feira, 29 de julho de 2016

29 de Julho


Mais um dia ____ menos um dia!
Hoje na 1ª sala de espera estavam poucas pessoas. Não havia atraso. Entreguei o cartão à Secretária Clinica e sentei-me.
Ao meu lado sentou-se um senhor já conhecido do "solário". De inicio ele era muito calado,introvertido mas com o tempo começou a entrar nas conversas que se geravam entre os outros pacientes. Falamos do atraso de ontem. Mas poucos têm o stress de uma espera.
Pouco tempo depois fomos chamados para a 2ª sala de espera.
Lá já se encontravam duas senhoras, também conhecidas do solário.
Uma delas falou do caso do pai que tinha falecido com um cancro de estomago. Foi operado mas não lhe fizeram nada. Já estava num estadio avançado.
Depois falamos nos Cuidados Paliativos ou na falta deles.
Referi que só 30% dos doentes que necessitam de cuidados paliativos têm acesso a eles. Os outros, ou têm sorte de ir para a uma Unidade de Cuidados Continuados (neste momento estão a fazer o papel de Cuidados Paliativos), ou vão para casa sofrer pois existe medicação que só temos acesso em farmácia hospitalar.
E a vida tem de ser vivida com dignidade e a morte acontecer com dignidade e sempre que possível sem sofrimento desnecessário.
Ali falamos de sofrimento e morte sem constrangimentos ____ "não fales em morte ou em sofrer pois ele/ela tem um cancro, mal ruim" frase que é sussurada cá fora pelos conhecidos, vizinhos e até por familiares. Não é o nosso caso pois pomos o preto no branco e não existem tabus!
Depois do solário fui buscar o cartão à Secretária Clinica e como ela para a próxima semana está no turno da manhã, despedi-me com um abraço e beijinhos.
Vou ter saudades____ como já disse um doce de pessoa!
....
Cheiro com cor
dão as boas-vindas
atenuam a dor
de quem lá chega
....
Já só faltam 5 tratamentos!

quinta-feira, 28 de julho de 2016

28 de Julho


Mais um ____ menos um!
Já fiz 24 tratamentos.
Hoje a 1ª sala de espera estava cheia. Algumas caras novas. Tem sido assim esta semana. O atraso era mais de 1 hora.
Entreguei o cartão e sentei-me à espera na companhaia da Maria Ivone Pinto Guimaraes.
Fui-me apercebendo que as caras novas estavam um pouco impacientes. Até o condutor da ambulância estava. Mas nestes casos saber esperar é o melhor.
Na 2ª sala de espera fiquei ao lado de uma senhora que iniciou o "solário" esta semana. Foi operada a um carcinoma da mama e teve que a retirar. Tem 45 anos. A decisão da mastectomia foi dela. Já tinha sido operada mas só ao local onde estava o tumor. Os ganglios sentinela na análise extemporânea (no bloco operatório) deram negativo. Mas depois no laboratório da Anatomia Patológica, com exames mais precisos, dois deles deram positivo. O cirurgião chamou-a e informou-a que tinha que fazer esvaziamento da axila e fazer nova cirugia da mama para alargar a zona à volta do local onde estava o tumor.
Ela perante a situação tomou a decisão que eu tomaria: "quero tirar a mama. Já não está aqui a fazer nada e nada me garante qe não possa que ter de ser operada novamente". O cirurgião concordou com a sua decisão.
A conversa girou à volta da estética/funcionalidade. As mulheres veneram as suas mamas quando as mesmas servem para amamentar. Deixando de servir para essa função e havendo um risco na saúde em mantê-las, retirar é a melhor opção. E sem drama!
Quando soube do meu problema disse ao cirugião à porta do Bloco: se tiver que tirar a mama, aproveite e tire a outra! Ele ficou admirado pois muitas mulheres fazem um drama por ficarem sem a mama.
A senhora é jovem, bonita e muito decidida quanto ao que vale a saúde em detrimento da estética.
Conversa boa, calma e natural como este quadro, exposto na parede do corredor, que me levou para tempos em que os raios que apanhava eram do sol e todo o ano ____ nas praias de Luanda!
Já só faltam 6 tratamentos!

quarta-feira, 27 de julho de 2016

27 de Julho


Já só faltam 7 tratamentos!
Hoje tive consulta de Radioterapia. Está tudo a correr bem. A pele está moreninha mas não tem lesões nem está enrugada.
Ficou marcada nova consulta para o dia 5 de Agosto, o último dia de tratamento.
Hoje, na 2ª sala de espera, estive a falar com uma senhora que está a fazer radioterapia e quimioterapia em simultâneo devido a um cancro do estomago. Já foi operada___teve que retirar o estomago (fez uma gastrectomia total). A conversa andou à volta da roupa. Começou nas camisolas viradas do avesso e acabou em roupa de cerimónia.
Disse que usava calças de ganga desde os meus 10 anos. Portanto há 50 anos. A ganga é a minha cara. Ainda bem que já tinha sido "inventada" quando eu nasci. Em Angola eram chamadas de "blue jeans".
As blues jeans são versáteis, resistentes, confortáveis e para todos os bolsos.
Entretanto chegou outra senhora (com um lenço primorosamente enrolado na cabeça) e a conversa ainda ficou mais animada. As festas vieram à baila____ casamentos, baptizados, aniversários, inaugurações.
Depois falou-se na espera para os tratamentos
A espera torna-se muito mais curta quando socializamos.
Eu disse que o tempo passa depressa. Só numa situação 50 minutos para mim significavam horas: quando ia para alguma aula sem a lição estudada e não queria que a professora me chamasse ao quadro. Passava a vida a olhar para o relógio. Um minuto era interminável. Elas riram-se! E a conversa virou para os tempos de escola. Não tardou fomos chamadas para o "solário".
De sorriso na cara entramos nos vestiários.
Por vezes pessoas minhas amigas e conhecidas perguntam-me: Está bem? Os tratamentos não provocam nada?
Eu respondo: estou lindamente! Os tratamentos estão a dar-me muita força!
Mais um ____ menos um!

terça-feira, 26 de julho de 2016

26 de Julho


Já só faltam 8 tratamentos!
Esta semana vou à noite no meu horário. Dias entro mais cedo, dias entro mais tarde para o "solário". Mas vou sem pressa. Aproveito os momentos de espera para, olhando ao redor da 1ª sala de espera, reflectir no sentido da vida. E ali vejo, diariamente, pessoas que não desistem, que falam no presente mas com confiança num futuro melhor. Claro que existem os casos mais graves que vêm de maca e ficam resguardados numa sala já para lá das portas que dão acesso ao corredor para os consultórios e "solário". Mas felizmente são poucos.
O tempo passa mas devemos fazer com que ele seja rentável. O tempo não espera e quando "acordamos" da letargia que é a rotina do dia a dia fica a pergunta: o que fiz no tempo para que a vida tivesse significado?
Desde há muito que tento fazer render o tempo. Quando andava na faculdade passava cerca de 6h em transportes públicos. Nunca consegui estudar em movimento. Decidi dedicar-me ao crochet e ao tricot. Fiz várias camisolas e casacos em tricot e toalhas em crochet. Na semana passada, em arrumações na minha casa, encontrei o meu material de crochet. Os meus tempos de faculdade vieram-me à memória.
Mais tarde e já em Vizela, tenho feito render o tempo (fora do horário de trabalho) em Associações.
Perante este desafio da vida e em duas salas de espera faço render o tempo ora reflectindo ora fazendo amizade com quem, como eu, tem a doença, o cancro, o malzinho. Um tempo de espera que é bem passado e que é sempre rentável!
Cada vez mais perto do fim e já com saudades. E digo saudades porque os tempos em que passei e passo por grande dificuldade ou infortúnios são os que mais me amadurecem. Como este corredor que me leva ao solário o tempo leva-me para mais perto de mim, ou seja, do meu espirito.
Mais um dia _____ menos um dia!

segunda-feira, 25 de julho de 2016

25 de Julho


Mais um _____ menos um!
Dia após dia vou chegando ao fim dos tratamentos!
Cada dia que passa fico mais enriquecida. Muitas pessoas pensam que riqueza é dinheiro. Enganam-se. Riqueza é o sentimento que une as pessoas. Como o que se passou com a senhora que acabou hoje os tratamentos. Conhecemos-nos desde que os iniciei no dia 21 de Junho.
Estava eu (e mais 3 homens) na 2ª sala de espera e ela passou vinda do "solário".
Entrou na sala e disse:
- Hoje foi o meu último tratamento!
Veio ter comigo, demos um abraço apertado acompanhado de 2 beijos e desejos de melhoras.
A despedida foi efusiva, cheia de alegria e de muita cumplicidade.
Sem dúvida sairei muito mais rica deste etapa da minha vida.
Dedico estas flores que estão na parede do corredor a todos os que passam por esta experiência que tem tanto de dor como de belo.
Já só faltam 9 tratamentos!

domingo, 24 de julho de 2016

Como te contar?

"Como te contar?

Inquieta-me a lucidez de certas horas.
Como te contar? Tudo nelas é perfeito,
e claro, e inabalável ... Até a dor!

A acomodação à realidade
põe-se a subir sorrateira pelo corpo
dos sonhos e dos desejos. Mata-os!

É perigoso viver desarmado
na lucidez das horas.
Quando menos se espera, morre-se!

Quero a minha lanterna sempre acesa,
Entrar com ela no inexprimível sossego
que precede a tempestade;

Escutar o respirar aflito do mundo
entre dois trovões, duas guerras, dois gritos,
separados apenas por um fio;

Um espaço impreciso, o fio, entre o um e o dois,
Espaço a que, só por ignorância,
chamamos silêncio."

Lídia Borges