terça-feira, 24 de novembro de 2009

Pais adolescentes - uma história



Parece que foi ontem e no entanto já se passaram cerca de 16 anos.
A Vera(nome ficticio) de 15 anos de idade entrou cabisbaixa no consultório. Já a conhecia desde os seus 8 anos. Notei a sua angústia, como quem tem uma confissão a fazer. Balbuciou, quase sussurou, algumas palavras e entre elas compreendi "atrasada" e "medo". Os seus olhos não largavam as suas mãos inquietas. Para facilitar a confissão perguntei-lhe como se chamava o namorado. Ela olhou-me e disse o nome. A conversa foi girando à volta do namorado, quantos anos tinha, se estudava...até à pergunta crucial...pensas que estás grávida?
Ela respondeu que sim e num choro convulsivo repetia "como é que digo à minha mãe?". Conhecendo a sua mãe (senhora muito "nervosa") fui falando na necessidade de uma análise para confirmar a gravidez e, no caso de ser confirmada, na vigilância da mesma.
Depois de acalmar incentivei-a a dizer à mãe logo que obtivesse o resultado para poder contar com o seu apoio. (A avó teve um pequeno "chelique" e de seguida só teve pensamentos para o neto que vinha a caminho).
Apesar de prematuro , nasceu um lindo rapaz o Luis (nome ficticio). A Vera casou e o rapaz cresceu aos seus cuidados e dos avós. Acompanhei o seu crescimento nas consultas de vigilância, na primeiras febre, nos primeiros dentes, quando foi para a escola e mais recentemente quando entrou para o Ciclo.
Passados 15 anos recebi a noticia de que o Luis vai ser pai. A namorada (também ela com 15 anos) é sua colega de escola. E o Luis, na sua adolescência ainda infantil, conversou com os seus pais e disse: "agora que vou ser pai, tenho de parar de estudar para ir trabalhar. Tenho de ganhar para criar o meu filho."
Claro que nem o Luis nem a sua namorada irão parar de estudar. As familias ajudarão estes dois adolescentes, ainda crianças, a serem pais de outra criança.

A Vera vai ser avó aos 31 anos. Eu sinto-me bisavó.