segunda-feira, 29 de abril de 2013

Dia...............




Dia

De que céu caído, 
oh insólito, 
imóvel solitário na onda do tempo? 
És a duração, 
o tempo que amadurece 
num instante enorme, diáfano: 
flecha no ar, 
branco embelezado 
e espaço já sem memória de flecha. 
Dia feito de tempo e de vazio: 
desabitas-me, apagas 
meu nome e o que sou, 
enchendo-me de ti: luz, nada. 

E flutuo, já sem mim, pura existência. 

Octavio Paz, in "Liberdade sob Palavra" 

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Porque gostamos...................




Porque gostamos...com Nuno Salta e Ana Rita Salta......meus amores!

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Foi no mar........................



Foi no mar que aprendi o gosto da forma bela
Ao olhar sem fim o sucessivo
Inchar e desabar da vaga
A bela curva luzidia do seu dorso
O longo espraiar das mãos de espuma

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 16 de abril de 2013

Como queria o ontem......


Ontem.....ah ontem...como queria o ontem.
O antes do ontem que já dura há 10 meses,
O antes do ontem em que nos deixaste.
O ontem que durou quase 28 anos.
Caminho no hoje sem ti, caminho pela tua irmã...e também por ti.
Acompanhas-me sempre no caminho de um hoje que já foi ontem e que será amanhã...acompanhas-me na minha memória, no meu coração, no meu ser que te deu ser. 

Este ontem que já dura há 10 meses tem sido feito olhando para ti, cheia de saudades, ainda ouvindo o portão a abrir quando chegavas a casa, ouvindo a tua voz calma, ouvindo a música clássica que me chegava da tua sala. 
Estás aqui....comigo...connosco. 
Amo-te meu filho! 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Durmo. Se Sonho, ao Despertar não Sei


Durmo. Se Sonho, ao Despertar não Sei

Durmo. Se sonho, ao despertar não sei
Que coisas eu sonhei.
Durmo. Se durmo sem sonhar, desperto
Para um espaço aberto
Que não conheço, pois que despertei
Para o que inda não sei.
Melhor é nem sonhar nem não sonhar
E nunca despertar.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

sábado, 6 de abril de 2013

Procurando.....................




Na ondulação da melodia
saio de mim;
perco-me na imensidão do nada,
procurando sem fim
o meu filho que perdi,

naquele dia.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Espiral.................


ESPIRAL

No oculto do ventre,
o feto se explica como o Homem:
em si mesmo enrolado
para caber no que ainda vai ser.

Corpo ansiando ser barco,
água sonhando dormir,
colo em si mesmo encontrado.

Na espiral do feto,
o novelo do afecto
ensaia o seu primeiro infinito.

MIA COUTO In "Tradutor de Chuvas"