terça-feira, 18 de outubro de 2016

Medicina Geral e Familiar _____


Por ser Dia do Médico______
É assim que entendo a Medicina Geral e Familiar:

A minha utente A. S. de 82 anos de idade veio para a consulta de vigilância de Diabetes e Hipertensão.
É uma senhora viúva que já foi emigrante, trabalhou muito e desde muito nova e sofre a dor de ter perdido uma filha. Ficou com a sua neta, ainda menor, a seu cargo (hoje já é uma jovem adulta formada e independente).
Devido à idade e já a uma certa necessidade de ser acompanhada foi viver com outra filha para Águeda.
Mas quis manter a sua inscrição na minha lista.
- Não quero mudar de Médica. Foi sempre a Senhra Drª que me tratou. Já me conhece por dentro.
- Mas a sua filha tem de a trazer cá. É um transtorno.- disse eu
- Não faz mal. Ela é vendedora e vem para estes lados muitas vezes. Venho com ela de manhã e vou à noite. Aproveito e vejo como está a minha casa aqui. Mas deste Centro de Saúde não saio. - respondeu a minha utente
Hoje ela chegou muito nervosa e foi dizendo:
- Desculpe Srª Drª mas estou desorientada. Recebi uma carta de um advogado, penso que seja por causa de um vizinho e já não fiquei bem.
- Tenha calma. Já leu a carta?
- Não.
- Mostre lá a carta. Até pode ser um assunto simples.
Lá procurou na carteira e entregou-me um registo.
- Mas ainda não foi levantar a carta - disse eu
- Pois. Eu fui mas já tinha sido devolvida. E agora vou ficar sem saber qual é o assunto.- disse muito nervosa
- Tenha calma. Eu vou ver se a posso ajudar.
Reparei que no registo vinha o nome de um advogado. Fui ao "Dr. Google" e pesquisei.
Encontrei um e tinha o contacto. Pedi licença à minha utente para ligar a saber se era o mesmo advogado da carta. Ela anuiu e agradeceu.
Liguei, identifiquei-me e expliquei o assunto à senhora que me atendeu (possivelmente a secretária) e esta confirmou que tinham recebido um registo devolvido no nome da minha utente.
Expliquei que a minha utente vivia com a filha em Águeda e, dado a "aflição" dela, se não poderia reenviar a carta para a morada da filha.
Mas a minha utente , com os nervos já nem sabia dizer a morada correctamente.
Disse-lhe para ligar à filha que eu falaria com ela. Assim foi: com os 2 telemóveis em chamada fui dando a morada à Secretária do advogado.
Assunto resolvido e a minha utente ficou mais calma.
Fartou-se de me dizer que estava a perder tempo com ela. E eu respondia que era meu dever ajudá-la mesmo que não fosse para casos relacionados com a medicina.
Deixei-a acalmar, fui vendo as análises e exames. Fui fazendo os cliques todos para os indicadores e depois medi-lhe a tensão arterial. Vá lá, estava dentro dos parâmetros normais. Já estava calma. Fiz o resto da observação, receitas e análises passadas e nova consulta marcada.
Antes de sair ela perguntou se podia dar-me dois beijinhos.
- Claro que sim! - respondi
Ela saiu mais calma e eu fiquei com dois beijos cheios de gratidão e amizade!

"Nas nossas vidas diárias, devemos ver que não é a felicidade que nos faz agradecidos, mas a gratidão é que nos faz felizes."

Albert Clarke